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A ASSOCIAÇÃO LIVRE NO FUTURO DA PSICANÁLISE

Orpheu Cairolli

Psicanalista Clínico e Didata



De alguns anos para cá, tenho participado de diversas discussões a respeito de princípios, técnicas e processos da psicanálise. A experiência adquirida nessas discussões, me permitiu formular algumas questões sobre os desafios para a nossa atividade no futuro próximo, que neste trabalho proponho discutirmos. Alguns profissionais apresentam idéias radicais e, outros, flexíveis. Defendem ou contestam, por exemplo, a regulamentação da profissão, métodos mais ortodoxos ou mais liberais, o uso da regressão e da hipnose, o uso do divã, a psicoterapia breve, comunicação interpessoal e o relacionamento com o paciente, como lidar com pacientes psicóticos, a pesquisa e os processos experimentais, o uso de tecnologia da informação – gravar ou não gravar, eis a questão!


Algumas dessas questões até avançam além dos profissionais interessados, alcançando possíveis pacientes: uma das minhas analisandas me disse no início de seu processo que não se trataria com um psiquiatra, que ela jamais se deitaria em um divã e que o profissional não poderia ficar “mudo”! Isso me fez lembrar os versos de Tom Prideaux :


“...E quando a minha exposição se tornou completa, pendia eu qual um esqueleto duma teia de aranha, enquanto você se mantinha distante, frio, sem ao menos tirar o paletó”.

Essas reflexões me conduziram a considerar a existência, na psicanálise, do paradoxo original das ciências, que apresenta três faces:


1ª) Existe um certo hermetismo natural da psicanálise, talvez devido ao grau de complexidade de seus conceitos, que se por um lado favorece o processo da análise, por outro dificulta o acesso e a decisão de uma considerável parte dos pacientes em potencial. Seria o caso de se promover uma “abertura” conceitual?


2ª) A questão da contextualização do paciente e do processo analítico, do ponto de vista histórico, cultural, social e econômico nos indica que, quanto mais consideramos as escalas relativas a estes itens, melhor observamos as oscilações e alternâncias de analisabilidade das pessoas, muitas vezes enfatizada por um item e, às vezes, obstruída por outro, no mesmo paciente. Por exemplo, um paciente de elevado nível social e cultural poderia ser mais viável economicamente, mas, em contrapartida, apresentar menor analisabilidade por seu elevado nível cultural e/ou intelectual.


3ª) A face relativa a pesquisa e a atualização da psicanálise enquanto ciência que, em comparação com tantas outras ciências que se renovam velozmente, pode apresentar um nível de risco muito elevado nos processos de experimentação.

PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS


Identificados esses três componentes que permeiam o desenvolvimento de qualquer ciência – hermetismo / abertura, contextualização e atualização – gostaria de tomá-los como pontos de partida para uma discussão sobre o item mais fundamental do processo de análise: tornar consciente o que antes era inconsciente[1].


Tão fundamental quanto essa conscientização é o método ou o meio, como ela é obtida. A Associação Livre, considerada como regra básica da psicanálise, segundo Ralph Greenson[2], “tem precedência sobre todos os outros meios de produção de material na situação analítica”.


Associação Livre


Descoberto por Freud entre 1892 e 1898 o método de Associação Livre é descrito por Laplanche[3] como a “expressão indiscriminada de todos os pensamentos que ocorrem ao espírito, quer a partir de um elemento dado (palavra, número, imagem de um sonho, qualquer representação), quer de forma espontânea”, ou seja, o conjunto de idéias verbalizadas pelo paciente, sem nenhuma preocupação ou compromisso com a lógica ou o estilo da expressão, pois a racionalização do paciente sobre o que está dizendo promove uma indevida seleção de idéias em cuja base é encontrada uma resistência, como por exemplo: “Lembrei-me de algo, mas não é nada importante, não faz sentido”.


Por estas definições já caracterizamos uma complexidade: a relatividade do grau de liberdade e espontaneidade desse processo. Vale então observar o seguinte:


1°) O analista solicita ao paciente que faça uma associação livre de idéias. Segundo Nunberg[4], essa solicitação “deve ser de forma direta e autoritária de maneira que o paciente produza lembranças involuntariamente como num transe hipnótico”. A primeira interpretação desse material facilitará a emergência de novas lembranças que por sua vez farão surgir outras e assim sucessivamente. Portanto, livre não é o início do processo e sim o desenrolar de associações posteriores.


2°) A liberdade pode ser ampliada no caso de não se fornecer esse ponto de partida (esta é, de fato, a regra fundamental da psicanálise).


3°) Por outro lado, a liberdade não pode ser tomada como uma indeterminação que favoreça uma verborragia sem sentido ou conteúdo psicanalítico, sob o risco de o paciente utilizar esse recurso justamente como um bloqueio ou uma resistência ao resgate do inconsciente. O que se pretende, sim, é eliminar a racionalidade e a consequente seleção de fatos feita pelo paciente, considerada como segunda censura (entre o consciente e o pré-consciente), mas, por outro lado, revelar as defesas inconscientes da primeira censura (entre o pré-consciente e o inconsciente).



A NOVA SOCIEDADE


Ontem


Freud inicia o desenvolvimento de seu trabalho em uma época anterior às revoluções industrial e tecnológica que marcaram significativamente a primeira metade do século passado e, também anterior às guerras mundiais que trouxeram novos conceitos em relação a conquistas territoriais, sociais, políticas e econômicas.


Eclodiam consciências políticas, movimentos de nacionalização das economias, de centralização dos poderes, da ajuda institucional, da democracia representativa, da prevalência das estruturas hierárquicas, assim como também eclodia o deslumbramento diante da possibilidade de comunicações cada vez mais fáceis e extensas e da “redução” das distâncias.


São eventos tão significativos e excitantes que se custa acreditar que sejam apenas dados históricos, coisas do passado!


Hoje


A revolução industrial se traduziu em sociedade da tecnologia da informação, da globalização das economias, da descentralização dos poderes, da era da autoajuda; a democracia evoluiu para participativa e as estruturas passaram a ser horizontais e dinâmicas, fundamentadas em “network” e no compartilhamento de competências.


Os meios e as redes de comunicação evoluíram tanto que a grande maioria das pessoas sequer conseguiu acompanhar a mudança, muito menos acompanhar e entender os processos. Aliás, quanto maior a velocidade das mudanças, maior a distância entre a base e o topo da pirâmide social, mais acentuadas tornam-se as diferenças e mais uma vez toma lugar um paradoxo: o excesso de recursos dificulta a administração.


Os indivíduos tentam se organizar diante do “culto ao novo”, tentam administrar as novas pressões ampliadas da atualidade e seus correspondentes estresses. Mas gente não é máquina, gente não muda assim tão fácil. Como aceitar e suportar que o Brasil exporte seus melhores jogadores de futebol, transfira sua técnica para outros países e assim crie os seus piores inimigos e perca gradualmente seu “status quo” de maior do mundo no ramo?


Há vinte anos, ninguém sonharia com esta situação.



Amanhã


Mulheres na liderança, biotecnologia e alimentos transgênicos, clonagem, projeto Genoma, renascimento das artes, renascimento religioso, fixação do indivíduo em núcleos descentralizados, trabalho à distância, compras à distância, jogo à distância, sexo à distância!...?! Triunfo do indivíduo?... Só se for pela psicanálise!!!


Hoje é absolutamente comum a aproximação pelas redes sociais e “casamentos” marcados sem que os pares, residentes em países diferentes, sequer tenham se tocado fisicamente. O método é moderno, mas as atitudes remontam a época das cartas trocadas por amantes virtuais! Mais ainda, esse sistema de comunicação não somente viabiliza a aproximação de pessoas como comércio e intercâmbio de informações jamais previstos anteriormente.

O que isto significa para a sociedade do amanhã?


Até mesmo por essa nova maneira de viver, não podemos afirmar tudo com segurança, mas sinto que o volume e a velocidade das mudanças exige uma total quebra de paradigmas no comportamento das pessoas, o descobrimento de novas maneiras de se relacionar com os outros e com a sociedade e, por fim, uma revolução no conjunto das nossas habilidades e competências, ou seja, melhor que aprender uma disciplina é aprender a aprendê-la, melhor que se preparar para uma nova técnica é se preparar para as constantes mudanças de técnicas. O que dizer dos efeitos da pandemia nos métodos de atendimento psicanalítico à distância também.



A PSICANÁLISE E A

SOCIEDADE PÓS-MODERNA


Um novo retrato


Estas são as pessoas com as quais a psicanálise e nós, os psicanalistas, devemos trabalhar daqui para frente. Pessoas que vivem em um compasso acelerado de mudanças, em uma sociedade muito diferente da época de Freud.


E no que são diferentes?


Anatomicamente talvez muito pouco. Na susceptibilidade e no processo de formação dos recalques e fixação das libidos, talvez pouco diferentes. Muito diferentes, porém, se considerarmos o nível de mudanças entre o universo de referências do período de recalques e o universo de referências na ocasião da manifestação das neuroses e do tratamento psicanalítico. Explico: no início do século passado uma pessoa pode ter experimentado da carroça ao trem, de 7 para 15 km de velocidade média, na minha geração, do bonde ao avião, o aumento foi de 20 para 800 km por hora.


Reforçando a idéia, quanto mais rápidas as mudanças, quanto mais avançamos em direção ao futuro, maiores diferenças encontramos entre o cenário do período de recalques (coincidentes com a manifestação de neuroses paternas recalcadas num período ainda mais distante) e o cenário do período de análise.



Revendo as questões iniciais


Voltemos então a trabalhar nossas questões iniciais considerando o hermetismo / abertura, a contextualização e a atualização em relação à nossa regra básica de associação livre, voltados para uma nova sociedade em constante mudanças.


1ª) Convém que a regra de associação livre seja de domínio técnico e teórico do paciente em potencial que compõe a sociedade de hoje?


2ª) Como esse conhecimento seria transferido?


3ª) Como compensar as questões de contexto que mudam aceleradamente?


4ª) Há possibilidade de atualização tecnológica breve para trazer o inconsciente ao consciente além ou com o método de associação livre, para ser aplicada em pessoas melhor informadas, com risco relativamente baixo?


Sugestões


Eu arriscaria a considerar as hipóteses abaixo como respostas às questões formuladas. Melhor será observar debates e contestações sobre elas:


1ª) Gostaria de lembrar que Freud realizou experiências de autoanálise[5] e que um dos recursos dos analistas em seus momentos difíceis é também recorrer à análise. Será que conhecer técnica e profundamente o método de associação livre dificulta essa análise? Por outro lado, entender melhor esse processo pode favorecer a análise e reduzir parte da ansiedade, eliminando resistências.


2ª) Como técnicas psicanalíticas o analista poderia realizar programas de informação e treinamento em sessões preliminares após as entrevistas e a anamnese, antes de iniciar o processo propriamente dito, bem como utilizar de métodos de exames psicofisiológicos, hoje estudados na área das neurociências.


3ª) A questão do contexto é de grande profundidade. Preliminarmente consideramos que no eixo histórico, o analista deveria explorar ainda mais as ocorrências familiares anteriores ao nascimento do paciente, para maior compreensão da influência familiar no processo de recalque e, ainda, observar mais detidamente os períodos intermediários entre o recalque e a manifestação das neuroses do paciente. Isto significaria estender o período analisado estabelecendo seus elos.


Para conviver com as circunstâncias típicas do eixo social, econômico e cultural e se sair bem, o psicanalista deve ser o mais eclético possível, ser primoroso no desenvolvimento de sua cultura geral, ser profundo em suas leituras e um estudioso contumaz, assim terá melhores condições para compreender pacientes de todas as origens e vertentes. Acredito também que um certo nível de especialização do analista pode favorecer o aprofundamento de seus conhecimentos e facilitar o desenvolvimento de sua experiência pelo estreitamento de seu foco profissional, o que seria um pouco mais difícil em cidades pequenas.


4ª) Particularmente, eu gostaria de analisar a conjugação da regra fundamental da associação livre com outras idéias e técnicas psicoterapêuticas já conhecidas e testadas. Entre elas, por exemplo, as avaliações biometrológicas realizadas pelos neurocientistas, a ginástica cerebral, que tem sido estudada no Brasil por um núcleo de psicólogos da Universidade de São Paulo[6].


Seus defensores consideram que os exercícios realizados com a hipófise, a pineal e as pulsações cerebrais ativam zonas adormecidas do cérebro e promovem, entre outras coisas, a melhoria de desempenho da memória, além de facilitar o resgate do inconsciente para o consciente.


CONCLUSÃO


Considerando o volume de mudanças experimentado pela sociedade atual, a velocidade em que essas mudanças ocorrem e a possibilidade de que isso seja ainda mais marcante no futuro; considerando que os analistas e a psicanálise são componentes ativos dessa sociedade em mudança; considerando a vulnerabilidade e as possíveis “vicissitudes do processo analítico”[7], considerando alguns paradoxos originais (o que não é exclusivo da psicanálise, mas ocorre em quase todas as ciências); concluímos que este é um momento histórico oportuníssimo para uma revisão dos fundamentos e das técnicas da psicanálise.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS



ETCHEGOYEN, Horacio R. Fundamentos da Técnica Psicanalítica. Porto Alegre: Artmed, 1989.


LAPLANCHE, Jean & PONTALIS Vocabulário da Psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, 2001.


NUNBERG, Herman Princípios da Psicanálise. Rio de Janeiro: Livraria Atheneu Editora, 1989.



BIBLIOGRAFIA CONSULTADA



FENICHEL, Otto Teoria Psicanalítica das Neuroses. São Paulo: Editora Atheneu, 2000.


GREENBERG, Jay R. & MITCHELL, Stephen A. Relações Objetais na Teoria Psicanalí-

tica. Porto Alegre: Artes Médicas, 1994.


LAPLANCHE, Jean Novos Fundamentos para a Psicanálise. São Paulo: Martins

Fontes, 1992.


NAISBITT, John & ABURDENE, Patricia Megatrends 2000. São Paulo: Amana-Key

Editora, 1990.


WEIL, Pierre Organizações e Tecnologias Para o Terceiro Milênio. Rio de Janeiro: Edi-

tora Rosa dos Tempos, 1991.

[1] Em sua obra “Princípios da Psicanálise”, que tem prefácio de S. Freud, Herman Nunberg afirma que a primeira modificação produzida pela análise é que o inconsciente se torna consciente, o que representa o ponto de partida das diversas modificações graduais na personalidade do paciente (1989, 383). [2] In: “A Técnica e a Prática da Psicanálise” – Imago p. 35. [3] In: “Vocabulário da Psicanálise” – Martins Fontes (2001, 38). [4] Idem 3, pág. 372 [5] Comentado como experiência de Freud em Associação Livre no “Vocabulário da Psicanálise” de Laplanche, Martins Fontes (2001, 38). [6] Com o objetivo de aumentar a capacidade de aprendizagem. [7] Etchegoyen, Horácio. “Fundamentos da Técnica Psicanalítica”. Artmed, 1989 – capítulos de 49 a 60.

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